Crítica Gastronômica

Uma experiência que levaremos para a vida – Parque Oschin|Monte Verde -MG

Cada vez mais temos pessoas dedicadas a agregar valor ao ato gastronômico e cultural. Um valor que não é só o sabor que se coloca no prato ou a história simplesmente contada da boca para fora.

A  experiência vivida é a melhor forma de contar uma história sobre determinada cultura ou chegar à um sabor único e perfeito como deve ser.

Nessa experiência que tivemos em Monte Verde, mais especificamente, no ultimo dia, aos 45 minutos do segundo tempo, quando já estávamos de malas prontas para voltar para casa, o quê era para ser uma simples ida ao parque para fazer as últimas imagens de cobertura do Programa Vem Pra Rua – Gastronomia e Cultura, em Monte Verde – MG, se tornou com toda certeza e digo isso com o coração sorrindo e os olhos brilhando, o melhor momento de cultura gastronômica que já vivenciei.

Logo na entrada do Parque Oschin, um parque particular que leva o nome do proprietário do local, o Senhor Oschin, de 62 anos descendente Letão, de avós nascido na Letônia, que chegaram no Brasil após lutar a primeira guerra Mundial, por motivos econômicos do país e também por razões de ordem religiosa, já sentimos uma enorme alegria no olhar desse Jovem senhor, de olhos brilhantes e de energia radiante, que ultrapassa todas as fronteiras quando começa a contar suas histórias vividas e ainda mais quando começa a falar sobre toda a fauna que cuida e cultiva com muito zelo dentro de seu próprio parque que é a maior herança de família deixada a ele – com toda certeza uma herança de valor inestimável.

Foram tantas informações, risadas, identificações, que não sei nem por onde começar esse texto, creio que precisaria de um livro todo somente para 5 horas em que permanecemos juntos, conversando, aprendendo, caminhando e a cada palavra dita pelo Sr Oschin, eu ficava ainda mais vislumbrado pelo profundo entendimento dele sobre os assunto, o parque, as arvores, os pássaros que voavam sem parar e principalmente as amistosas e imponentes Lhamas, sim, você não leu errado, lá vivem três Lhamas, que ficam para lá e para cá sendo puxadas e acariciadas por suas netas. Mas os dois assunto que eu vou falar nesse texto é simples e direto, na verdade seriam 3, mas a fruta misteriosa ganhará um texto exclusivo mais para frente, então através do meu olhar, mente e coração, tentarei passar um pouco do que foi presenciar a sapecada do pinhão e o café tropeiro, feito diante dos olhos de vinte e poucas pessoas, com toda a magia e riqueza de detalhes através da boca do Sr Oschin.

Sentado em um toco de madeira, frente a um Trempe Campeiro feito de troncos de eucalipto, dando vida lentamente ao fogo feito de gravetos colhidos do chão, reinava a paz e a concentração no olhar desse senhor, minutos antes de começar seu SHOW de 50 minutos .

Seu semblante era como se ele  revivesse em poucos minutos todo o conhecimento adquiridos através dos anos e de suas inúmeras peregrinações pelo Mundo, outro capitulo sobre o Sr Oschin, que com toda certeza merece um livro, uma pena não termos tido tempo para entrar afundo em suas viagens.

Atrás dele havia uma corredeira de água, limpa e cristalina que vinha do alto da montanha até um lago onde 6 cisnes negros nadavam sem se preocupar nem um pouco com as pessoas ali presentes e do outro lado de seu “palco”, uma pilha de grimpa (folhas secas de Araucária), que seria utilizada na sapecada do pinhão, uma técnica simples de fazer, porém complexa se olhada pelo visão química da coisa. Basicamente a folha entra em combustão tão rápido e com tanta intensidade e altíssima temperatura, que quase que instantaneamente, assa o Pinhão, deixando em um ponto que só saberei explicar após come-lo novamente.

Uma mistura de adocicado, com o defumado leve e suave proveniente da rápida combustão que deixa a semente em um ponto entre o macio e o alldente, arrisco dizer que em um “PONTO DE PERFEIÇÃO” , que nenhum chef ou cozinheiro irá saber fazer de outra forma, por se tratar somente de três elementos e a única forma de controlar esse assado de pinhão é colocando mais ou menos grimpa no monte onde os pinhões são colocados entre os galhos antes de colocar fogo em tudo e depois de aceso, nada é capaz de parar a força desse fogo. Pinhão, galhos de araucárias secos e fogo, são os elementos que essa técnica Tropeira utiliza e acredite,  faculdade nenhuma irá te ensinar nada perto e nem parecido com isso, a única forma de ter esse tipo de conhecimento é estando com quem realmente vive da natureza, peregrinando pelo Mundo, vivendo da roça ou indo até o Parque Oschin, para ter essa incrível experiência.

Por ultimo mas não menos importante vamos falar do café tropeiro, tentarei ser breve da mesma forma que fiz ao fechar os olhos para provar o grão mineiro, colocado dentro de um caldeirão de ferro, com água do riacho, que estava pendurado a pouco mais de 10 centímetros de um intenso fogo na Trempe de eucaliptos com uma base feita de pedras que provavelmente também foram retiradas ali dos arredores do riacho.

Contrariando tudo que você e eu provavelmente  já aprendemos com qualquer barista, livros, cafeterias, ou seja lá quem te ensinou fazer um delicioso café, tipos de filtros para coar, espessura da moagem do grão ou seja lá qual for a técnica que você conhece, eu vou te explicar aqui em um único parágrafo o café tropeiro, mas acredite, só provando em meio a natureza para entender o verdadeiro sabor que essas palavras não serão capazes de descrever.

Acenda o fogo o mais forte possível, coloque no caldeirão umas duas paneladas de água límpida e pura de riacho, deixe ferver até borbulhar, acrescente uns 400 gramas nada uniforme de grãos de café mineiro moído (medida que eu estimo ter visto no pote de plástico utilizado para armazenar o café), um bocado de açúcar, mas não muito, por que queremos sentir o gosto do café verdadeiro e deixe ferver até que o fogo apague e reste somente troncos em brasa (demorou uns 10 minutos creio eu).

Espere, chegou mais uma família no parque e o Sr Oschin, acrescentou mais um bocado de água do riacho e mais uns dois punhados de grão e deixou ferver mais um pouco e pronto. Acrescente dois ou três troncos em brasa  dentro da panela para decantar o café e o pó ficar todo no fundo do caldeirão, pode parecer mágica mas é muita ciência envolvida novamente na cozinha à céu aberto e esteja pronto para provar o melhor CAFÉ TROPEIRO feito pelas mãos habilidosas de um senhor que faz uma favor à natureza, aos humanos e principalmente a cultura e a gastronomia, preservando a história geração após geração.

Me chamo Luiz Vidal, sou cozinheiro, fiquei de boca aberta com os sabores tirados direto da natureza com muito respeito, simplicidade e ousadia pelo Sr Oschin, proprietário do Parque Oschin, em Monte Verde – MG. Muitíssimo obrigado pela experiência proporcionada a todos nós buscadores de boas recordações e bons momentos ao lado de pessoas únicas e especiais que existem aos montes nesse planeta e se você quer encontra-las eu só tenho uma coisa a dizer saia de casa e Vem Pra Rua – Gastronomia e Cultura.

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